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Iniciativas promovem educação antirracista

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Iniciativas promovem educação antirracista

Na esteira do movimento Vidas Negras Importam, que se espalhou pelo mundo, brancos anônimos e famosos abriram espaço nas redes sociais para a causa antirracista. Entre eles, Lady Gaga, Tatá Werneck e o ator Paulo Gustavo.

29/06/2020 22h40  Atualizado há 8 minutos

Especialistas lembram que racismo vai além da violência e agressões verbais

Especialistas lembram que racismo vai além da violência e agressões verbais

 

Em um momento em que milhões de pessoas no Brasil e no mundo têm, mais uma vez, levantado a voz contra o racismo, especialistas nesse assunto lembram que a discriminação vai além da violência e das agressões verbais. Os repórteres Alan Severiano e Andreza Oliveira mostram iniciativas para promover uma educação antirracista.

A angústia começa com uma discussão: ter ou não ter filhos?

“Eu não quero que os meus filhos passem pelo que eu passei. Ele pode estar correndo, brincando na rua, e ele pode ser suspeito de roubo”, explica a estudante Camila Moura dos Santos.

A herança vira dor e ganha nome quando a criança negra chega à escola.

“Foi um choque, porque eu não tinha contato com racismo. A gente aprende que se você é preto, você é menos”, conta a designer de moda Talita Ramos.

E a vida inteira é uma luta para provar que a cor não deveria ser motivo de julgamento.

“Às vezes as pessoas ficam brincando com apelidinhos sem graça. Brincando de macaco, essas coisas. Isso daí incomoda muito a gente”, afirma o mecânico Gilberto Marcelino.

“Quando a gente entra numa loja, geralmente os seguranças ficam o tempo todo atrás da gente”, conta a manicure Vilma Santos.

Na esteira do movimento Vidas Negras Importam, que se espalhou pelo mundo, brancos anônimos e famosos abriram espaço nas redes sociais para a causa antirracista. Entre eles, Lady Gaga, Tatá Werneck e o ator Paulo Gustavo.

“É um primeiro passo. Empunhar essa bandeira, se colocar como antirracista. Mas o segundo passo com certeza vem com ações concretas. O Brasil é um país em que todo mundo admite que há racismo, mas ninguém se assume racista”, avalia a mestra em filosofia e escritora Djamila Ribeiro.

Autora de um dos livros mais vendidos do momento, a filósofa Djamila Ribeiro explica que o racismo vai muito além dos xingamentos e da violência física contra os negros.

“A prova que o racismo existe é a gente estar no país de maioria negra e essa diversidade não estar refletida nos espaços de poder. É racismo a gente chegar na faculdade e eu sou a única aluna negra da sala. E todos os professores do departamento são homens brancos, e as mulheres que estão limpando banheiros são mulheres negras. O racismo impede a mobilidade social das pessoas negras, impede que se tenha oportunidades iguais. Pessoas brancas, por mais que elas digam que não são racistas, elas não deixam de ser beneficiadas estruturalmente pelo racismo”, explica Djamila Ribeiro.

O advogado Silvio Almeida, que escreveu um livro sobre o racismo estrutural, diz que é preciso reconhecer privilégios para atacar o problema.

“Só existe racismo porque existem relações de poder que são relações assimétricas, desiguais. A luta contra o racismo é uma luta contra tudo aquilo que retira as possibilidades das pessoas poderem construir a sua própria vida coletivamente e planejar o seu destino. Não é os negros contra os racistas. E nem os negros contra os brancos. A luta antirracista é todo mundo contra os racistas”, destaca Silvio Almeida, advogado e professor de direito da FGV.

Conhecer a história do Brasil é fundamental para entender como as coisas são hoje. Foram séculos de escravidão e de opressão. Quando a abolição foi decretada, no fim do século XIX, os negros não tiveram direito a terras, um incentivo que foi concedido aos imigrantes europeus num país que buscava o branqueamento da população. Em 2003, uma lei tornou obrigatório em todo o país o ensino da história e também da cultura afro-brasileira, mas até hoje muitas escolas não cumprem a determinação.

Na escola onde ensina, a pedagoga e socióloga Regina Maria da Silva usa livros infantis de autores negros e bonecas para educar contra o racismo desde cedo.

“Já ouvi de crianças que ‘me amavam, mas por que minha pele tinha que ser preta?’ Então a gente tem que fazer todo um trabalho para ela desconstruir a ideia de que é escuro, que é preto, que é negro é ruim. Através da criança, a gente acaba formando a família. Então, começar a falar sobre a diversidade em casa, porque em muitos lares esse não é um assunto”, explica.

Na família da enfermeira Roberta Campos Baptista a transformação começou quando ela engravidou.

“Eu tinha cabelo liso, eu alisava, para tentar me encaixar no padrão. Aí a gente começou a despertar para essa consciência, aí cortei meu cabelo, deixei ele crescer enrolado para também ser um exemplo para a Dandara”, conta.

Dandara ganhou o nome em homenagem à guerreira negra que foi mulher de Zumbi dos Palmares.

“A nossa maior preocupação é que ela cresça sabendo quem ela é, de onde ela veio e consiga valorizar essa origem dela”, destaca Roberta.

Não achar natural é outro caminho para tirar a poeira que encobre o racismo.

“Não se calar é a primeira coisa. Quando você presenciar qualquer cena de alguém xingando, de alguém acusando, é você questionar”, afirma a estudante Camila.

André e Gustavo viraram amigos na escola e, com a amizade, veio o aprendizado.

“A gente não pode perder de vista que é uma luta dos negros, é um protagonismo deles. Nós, como brancos, a gente tem condições de apoiar muito e ajudar muito nessa luta. Você não pode aceitar a morte de um João Pedro, de uma Ágatha, de um Amarildo e deixar passar e falar: ‘tudo bem, acontece’. Não, você tem que se posicionar. Cobrar as autoridades, porque isso precisa mudar”, diz André de Lima, técnico em edificações.

“No momento que a gente parte para a ação, que possibilita meios de diminuir essa desigualdade, que seja social, racial, aí sim você está fazendo algo benéfico para todos. A partir do momento que você olha para o seu próximo como igual, você acaba tratando ele como você gostaria de ser tratado”, avalia Gustavo Tomaz, gerente de projetos.

G1

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