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O mercado de livros em queda livre

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O mercado de livros em queda livre

Setor encolheu 25% entre 2006 e 2018; presidente do Sindicato dos Editores analisa a crise.

 

Livraria em Campinas — Foto: Cris Vieira. Livraria em Campinas — Foto: Cris Vieira.

Livraria em Campinas — Foto: Cris Vieira.

 

Uma pesquisa divulgada pela FIPE – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas no final do mês de maio revelou que o mercado editorial brasileiro perdeu um quarto do seu tamanho entre 2006 e 2018, e que a queda do faturamento se acentuou especialmente nos últimos quatro anos.

A pesquisa, encomendada pelo Sindicato nacional dos Editores de Livros – SNEL e pela Câmara Brasileira do Livro – CBL, sinalizou que houve uma queda forte tanto no mercado quanto nas vendas para o Governo. Os números divulgados pela FIPE foram classificados como “um desastre” pelo editor Marcos Pereira, presidente do SNEL. Nesta entrevista, ele analisa as razões do desastre e o desafio de superar a crise.

Segundo recente pesquisa divulgada pela FIPE, nos últimos 13 anos o setor editorial encolheu 25%. Você classificou os números dessa pesquisa como um “desastre”. Como presidente do SNEL, a que você atribui esse desastre?

Marcos Pereira - Sem dúvida à crise econômica. Quando você analisa a série histórica, percebe que as vendas de livros ao consumidor final permaneceram estáveis em faturamento entre 2006 e 2014, em torno de R$ 5,3 bilhões, com um crescimento robusto do número de exemplares: de 193 milhões para 280 milhões. Isto significou um enorme esforço dos editores em reduzir os preços, procurando alcançar um público maior de leitores.

 

Infelizmente a recessão aguda dos anos 2015 e 2016, com o desemprego atingindo mais de 13 milhões de brasileiros, aliado à queda nos índices de confiança do consumidor, provocaram o “desastre”, representado por 75 milhões de livros a menos vendidos na comparação entre 2014 e 2018.

Os subsetores que apresentaram os números mais graves são os de Obras Gerais e Científicos Técnicos e Profissionais (CTP). Como você explica isso?

Marcos - No caso de Obras Gerais, por serem livros de entretenimento e cultura, existe também a competição pelo tempo das pessoas com outras formas de lazer, como por exemplo as mídias sociais, que estão cada vez mais em evidência, e a crescente disponibilidade de conteúdos por assinatura, principalmente as séries de TV.

O desempenho do CTP está diretamente relacionado aos investimentos em educação profissional, no ensino superior, e em emprego. A série histórica mostra o crescimento do mercado entre 2006 e 2014 e a queda livre de 2015 em diante. É um cenário muito preocupante para um país que quer participar das grandes decisões mundiais.

O número de exemplares vendidos, contudo, cresceu no mesmo período, de 318,6 milhões em 2006 para 352 milhões em 2018, porque o preço médio dos livros diminuiu em 34%. O preço alto dos livros no Brasil era uma queixa recorrente, mas como fechar essa equação se, com preços mais baixos, o setor encolhe?

Marcos - Você está considerando nesta pergunta as vendas ao Governo, que devem ser tratadas de forma separada, pois dizem respeito aos livros didáticos direcionados ao ensino básico. Eu prefiro trabalhar com o número de 193 milhões em 2006 e 203 milhões em 2018.

Eu acredito que o preço dos livros está no patamar mais atraente da série histórica, e os editores podem se beneficiar disto numa virada da economia brasileira. Todos tiveram que redimensionar suas empresas, tornando-as mais produtivas e eficientes.

 

O subsetor de livros didáticos apresentou uma queda real de 23% de 2006 a 2018. Por causa dos programas governamentais, é o segmento com maior participação das vendas ao governo, responsável por 40% do seu faturamento. É saudável que o setor de livros dependa tanto do das compras governamentais? Que outras políticas públicas – por exemplo, de fomento à leitura – poderiam ser eficazes?

Marcos - Recentemente produzimos com o Instituto de Ensino e Pesquisa – Insper uma pesquisa em escolas públicas, para entender e propor novas iniciativas ao Ministério da Educação para transformar o retrato da leitura no Brasil. Considerando que mais de 90% dos alunos de educação básica estão na rede pública, é papel do Estado prover os recursos necessários para essa mudança.

No entanto, eu acredito que o investimento deva ser feito em cinco eixos fundamentais: pessoas – professores, bibliotecários, mediadores de leitura –, acervo, espaço físico, serviços e atividades curriculares e extracurriculares e recursos eletrônicos.

Em um passado recente, mesmo em momentos de otimismo os indicadores de consumo e crédito não se refletiram em um crescimento efetivo do mercado de livros. Que erros estratégicos o setor cometeu? Como evitar que esses erros se repitam diante de um possível reaquecimento da economia?

Marcos - Eu discordo dessa afirmativa. Infelizmente não temos dados consistentes anteriores a 2006, mas por experiência própria eu diria que o mercado teve um crescimento robusto a partir de 1998, nos anos que se sucederam ao Plano Real. Algumas iniciativas de popularização do livro, como a venda através dos catálogos da Avon, se tornaram cases mundiais.

Isto gerou um enorme interesse de editores internacionais pelo mercado brasileiro. Grandes grupos como Planeta, Leya, Harper Collins e Penguin Random House investiram no Brasil, apostando no crescimento de nosso mercado. Este é outro motivo para a redução do preço médio dos livros nos últimos anos.

 

Acho que o principal erro que cometemos foi não perceber a desvalorização de nosso produto, muito em função do crescimento das vendas online, onde os livros são oferecidos com descontos predatórios, com a intenção de atrair os clientes.

Qual a influência da digitalização nessa crise do mercado? Qual o impacto, por exemplo, da Amazon, que tem investido em sua plataforma de auto-publicação “Kindle Direct Publishing”? O setor subestimou as consequências do livro digital?

Marcos - De forma alguma, o livro digital é muito saudável. Não temos informações sobre o tamanho do KDP, mas é um mecanismo importante para autores que não conseguem acesso a agentes e editores.

Feito o diagnóstico, qual o prognóstico: como e em quanto tempo o setor poderá sair da crise?

Marcos - Esta é a pergunta de um milhão de dólares. A crise teve um efeito colateral perverso, que foi a recuperação judicial das duas maiores redes de livrarias do país, com uma perda de R$ 360 milhões para os editores. Estamos muito próximos ao mercado e aos livreiros para reverter este quadro, mas a demora na aprovação das reformas, fundamental para a volta de investimentos, empregos e crescimento, é muito preocupante.

Ao tomar posse como presidente do SNEL em dezembro de 2014, você destacou como principais pontos da sua agenda a Lei do Direito Autoral, a Lei das Biografias, a equiparação do livro digital ao livro físico em termos tributários; e a valorização do livro e de sua cadeia produtiva. Quatro anos e meio depois, que avaliação você faz da evolução de cada um desses temas?

SNEL - O Supremo Tribunal Federal foi muito feliz em resolver dois dos pontos de nossa agenda, com as decisões unânimes amparadas nos votos da Ministra Carmen Lúcia, sobre as biografias, e do Ministro Dias Toffoli , sobre a equiparação tributária.

 

A mudança da Lei do Direito Autoral era uma pauta do governo Dilma Rousseff, e conseguimos mostrar a importância dos mecanismos de proteção como forma de incentivo à produção cultural. Neste sentido, foi muito importante a parceria com instituições internacionais como a International Publishers Association (IPA) e World Intellectual Property Organization (WIPO).

A crise do mercado editorial será tema da próxima novela das sete da Globo, “Bom Sucesso”, na qual Antonio Fagundes interpreta o dono de uma editora que está com os dias contados. Como você recebeu essa notícia?

Marco - Recebemos com muita alegria. Os autores e equipe de produção da novela nos procurara, e tiveram contato também com várias editoras, para entender o funcionamento do mercado. Será muito bom ter o livro como um dos protagonistas da próxima novela das sete, que alcança milhões de pessoas em todo o Brasil.

G1

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