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Pela memória de Caio Jr., filho usa redes sociais para aproximar amantes do futebol aos pensamentos do técnico

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Pela memória de Caio Jr., filho usa redes sociais para aproximar amantes do futebol aos pensamentos do técnico

No Instagram, Matheus Saroli mostra como era a preparação do trabalho de campo do pai e da comissão técnica, além de releituras de situações atuais no futebol

Rio de Janeiro

29/07/2020 19h25  Atualizado há 4 horas

Do vestiário para o campo. Foi assim que uma conta no Instagram com pouco mais de 2 mil seguidores me mandou uma mensagem pedindo para eu conferir o conteúdo que era postado. Nela, o administrador da página logo se identificou: era Matheus Saroli, filho do técnico Caio Júnior.

De cara, já gostei do conteúdo, com campinhos e informações de como eram as estratégias para cada jogo. E o que mais me tocou foram os prints de mensagens do treinador falando sobre decisões de campo e bola, algo tão distante do nosso cotidiano na mídia jornalística tradicional. Segundo Matheus, a ideia é manter a memória do pai, do auxiliar técnico (e primo) Duca e do analista de desempenho Pipe (amigo de infância). Todos falecidos na tragédia com o avião da Chapecoense.

Matheus Saroli e o pai Caio Júnior, então técnico da Chapecoense — Foto: Arquivo Pessoal

Matheus Saroli e o pai Caio Júnior, então técnico da Chapecoense — Foto: Arquivo Pessoal

Matheus tem 28 anos, é formado em sociologia na Jacksonville University (EUA) e tem feito cursos de extensão em jornalismo esportivo. A ideia do pai era inserir Matheus na comissão técnica e, mais tarde, o irmão Gabriel (hoje com 24 anos) como auxiliar de preparação física. Tudo isso para se manter mais próximo dos meninos. Caio Júnior lamentava o fato de o futebol ter tirado de alguma forma a convivência com os filhos (a quem ele chamava carinhosamente de Theus e Bi). Numa das mensagens postadas por Matheus no Instagram, ele mostra um diálogo de Caio falando sobre o desejo de tê-los próximos de alguma forma.

A trajetória de Caio Júnior como técnico foi meteórica, mas também com algumas desilusões no percurso, lembradas por Matheus.

Como jogador, encerrou a carreira e passou a ser comentarista na rádio "Banda B", na TV CNT e também no Premiere. Já como treinador, a oportunidade surgiu em meados dos anos 2000 no Paraná. Assumiu a equipe principal no ano de 2002. A equipe estava perto de ser rebaixada, mas em 10 rodadas conseguiu livrá-la da queda.

Porém, o caráter de Caio Júnior se viu confrontado com algumas situações contraditórias do mundo da bola fora do seu estado, o que fez com que ele desanimasse da carreira de técnico e voltasse a ser comentarista no rádio. Em 2006, Caio estava ao vivo na rádio "Banda B" quando o então presidente do Paraná, José Carlos Miranda, pediu para entrar no ar e convidou o então comentarista para retornar ao trabalho de treinador. Caio Júnior fez com que o Paraná se classificasse para a Libertadores pela primeira vez na história (em 2007). Na festa de premiação da CBF no fim do ano, veio o convite para agregar ainda mais na carreira: assumir o Palmeiras. Motivo de felicidade e orgulho para a família.

Caio Júnior na época em que foi técnico do Paraná Clube — Foto: Reprodução/RPC

Caio Júnior na época em que foi técnico do Paraná Clube — Foto: Reprodução/RPC

Matheus acredita que Caio talvez não estivesse tão preparado como técnico para compromissos com o Palmeiras e Flamengo (já em 2008) por ser muito jovem. Mesmo depois tendo treinado Grêmio, Botafogo, entre outros. O auge da maturidade da carreira do pai, segundo o próprio filho, se deu a partir da passagem pelo Al Shabab (Emirados Árabes), que fez com que ele retornasse ao Brasil e assumisse a Chapecoense no fatídico ano de 2016.

O último jogo da Chapecoense no Brasileirão daquele ano foi contra o Palmeiras, em São Paulo. A Chape permaneceu na capital paulista, de onde embarcou para a final da Sul-Americana. Após o último jogo, de muita comemoração para a equipe de Cuca pela conquista do título brasileiro, o time titular da Chape corria e treinava no gramado do Allianz. No dia seguinte, aconteceu a festa do título organizada pelo Alviverde. Eu, à época setorista do Palmeiras pela Rádio Globo, fui cobrir a festa. E mais do que ouvir os campeões, eu estava atrás de uma notícia: quem seria o técnico do time na temporada 2017 (já que, desde outubro, eu sabia que Cuca não permaneceria)? Uma corrente na Pompeia falava no nome de Caio Júnior, e a minha missão era conseguir essa notícia. Porém, a ordem era “só quando ele voltar da Colômbia”. Fato que Matheus também lembra.

Caio sentia que uma sondagem do clube que já tinha treinado poderia acontecer, assim como a possibilidade de assumir o Vasco.

Matheus inclusive não embarcou no voo porque achava que precisava do passaporte para viajar para Colômbia. Como a regra estabelecida pelo pai era de que familiares não viajassem juntos a cada fase que a Chape ia avançando na Sul-americana, o filho foi para São Paulo apenas para acompanhar o jogo contra o Palmeiras. Quando a logística mudou e ficou decidido que a viajaria em voo comercial, surgiu a possibilidade de Matheus ir junto. Numa conversa rápida com o pai no elevador, Caio pediu para ele não perder o voo e voltar para Curitiba. Só depois ambos descobriram que, por fazer parte do acordo entre países do Mercosul, Matheus não precisaria do passaporte. Porém, não embarcou.

Em 2020, o filho quer manter a memória do pai viva e fazer a vida caminhar unindo o que era a paixão de Caio e consequentemente do Theus e do Bi: o futebol.

Na página do Instagram, há curiosidades sobre a montagem e os bastidores do time finalista da Sul-Americana nunca antes visitadas: como o fato de que Caio Júnior planejava dar mais chances ao jovem goleiro reserva Follman. Muito também por entender que vários clubes da série A tinham interesse no titular Danilo, que vivia espetacular fase naquela temporada.

Matheus tenta iniciar a carreira de comentarista e aguarda a possibilidade em meio à pandemia para trabalhar em rádio. Mais uma forma do destino manter pai e filho unidos pelo gosto da comunicação. Caio amava comentar. Segundo relatos, sempre dizia que queria se aposentar das pranchetas e voltar para o microfone. Fato confirmado por Matheus, que usa a página no Instagram @dovestiarioprocampo para fazer releituras de atitudes, tomadas de decisão do treinador, o reflexo dentro de campo, as estratégias que se confirmaram e também tentar nos aproximar da linguagem íntima da cabeça de um técnico, algo tão raro de termos acesso na mídia tradicional.

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